Um dia acordei e senti o chão a fugir-me. Senti os pés agrilhoados e senti-me a cair, sem conseguir pedir ajuda. Sem conseguir explicar a força que em mim era exercida. Sem conseguir sequer dizer "estou aqui". Veio a sensação de impotência, de dor, a existência de noites de choro. Depois de um "eu existo", tentei. Tentei dizer "eu não quero este chão que foge, mas não me possibilitam outro". Tentei. Tentei. E voltei a tentar, num turbilhão de pensamentos, envoltos em dias de nevoeiro, em dias de chuva, em dias que podiam ser denunciadores de tempestade. Sem calamidades, sem alarmismos, sem pressões, tentei. Voltei a tentar. E voltei a não conseguir dizer "estou aqui". Ás vezes, aquelas nuvens escuras demoravam a passar (nem sei se alguma vez passaram, de facto). A água escorria pelo corpo, numa tentativa de alivio. Mas a única forma que o possibilitava era sentir a parede branca à minha frente, como se de uma nuvem clara se tratasse. E deixar cair mais uma gota, um fio. Até que "puff", adormecia. No dia seguinte, como em todos os dias a seguir a grandes tempestades, o sol estava radioso. Vestia a roupa mais colorida tentanto afastar o preto das nuvens, mas o dia trazia consigo desilusão.
E mais um dia. Um dia em que o chão fugiu. As nuvens pararam, levaram os passageiros, ninguém voltou para trás.
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